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Luto, cansaços e dores: o ordinário que impacta na literatura Mahana Cassiavillani

por Aline Teixeira


Em terceiro livro de contos, autora escancara situações e sensações controversas nas entrelinhas do cotidiano.


Os dias de uma pessoa são cercados por acontecimentos, dos mais banais aos mais complexos. Afinal, a vida acontece e a pessoa é convidada indispensável desse grande evento, quer ela queira, quer não.  As relações interpessoais e intrapessoais ditam o desenrolar da festa e o caminho a um desfecho quase sempre inesperado, que pode tanto ser breve quanto durar uma existência toda.

De tão constantes, os tais acontecimentos, ainda que de dimensões incalculáveis, acabam por se tornar triviais e deixam de reivindicar a atenção muitas vezes necessária a nível pessoal e social. Cada qual vive sua vida conforme acredita ser correto, cada um faz o que acha que deve ser feito, todo mundo tem direito de expressar ou esconder sua opinião e ai de quem contestar. E ninguém mais contesta, às vezes sequer sente. Tudo está normalizado, nada mais choca. Até que um livro, que narra situações corriqueiras, coloca o dedo na ferida, cutuca e mostra que as coisas não são tão normais assim.

Através de uma coletânea de contos simples, porém incisivos, a escritora paulista Mahana Cassiavillani apresenta seu terceiro livro e mostra sua potência narrativa ao falar sobre acontecimentos vistos no dia a dia de forma a atingir o leitor em cheio, causando tanto identificação quanto repulsa.

A literatura como estilo de vida e salvadora de vidas

Há quem diga que a literatura não serve para nada, há quem diga que ela é capaz de salvar vidas. Mahana Cassiavillani é do time das pessoas que acreditam que só a literatura salva, tanto que está presente em sua vida desde que se conhece por gente e a acompanha nos momentos bons e nos momentos de dificuldade.

Nascida na cidade de Santo André (SP) em 1983, desde pequena viu o fascínio literário brotar ao folhear páginas de livros infantis logo na primeira infância, encanto que continuou na adolescência e seguiu até encontrar um gosto e estilo próprios, incorporados à sua personalidade e refletidos em seu trabalho.

A paixão pela arte da escrita levou Mahana às Letras, formando-se pela Universidade de São Paulo (USP), seguindo para a pós-graduação em Estudos Brasileiros pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e o mestrado em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Logo na estreia como contista, ganhou uma seção só para ela na revista Ponto da editora SESI, a Ponto do Novo Conto. Depois, se juntou ao grupo Work in Progress, dirigido pelo vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Jabuti Marcelo Maluf, autor de A imensidão íntima dos carneiros.

Elogiada por seus colegas pela facilidade em cativar e causar estranhamento com seus escritos, Mahana publicou seu primeiro livro, Deus é bom e o diabo também (editora Dobradura), lançado em 2017, onde já mostra o que vem a ser sua marca registrada, o domínio pleno na escrita de contos que permeiam o lirismo e a pungência de forma concisa. Característica esta também impressa no segundo trabalho, o livro O caminho da serpente (editora Fábrica de Cânones), de 2020.

Agora, com seu terceiro livro de contos, o estilo Mahana Cassiavillani de literatura se confirma e firma seu nome como um dos mais potentes no gênero, dispondo-se a contar coisas que todos sabem, todos sentem, mas nem todos admitem ou querem enxergar.

Dores que cansam, cansaços que doem

Uma infinidade de sentimentos faz parte da essência humana e nos acompanha constantemente. Alguns deles nem sabemos nomear, outros resumimos como uma coisa só. No caso do título do novo livro de Mahana Cassiavillani, vários deles foram englobados em três que, por sinal, descrevem com perfeição muito daquilo que não encontramos denominação adequada: Luto, cansaços e dores.

A tríade que nomeia a obra também encabeça as três partes em que o livro é dividido. Em Luto, ficam os relatos mais breves, mas com tamanha profundidade que as palavras não se fazem necessárias. Já em Cansaços, a proximidade com o cotidiano é gritante e quase impossível se esquivar de uma identificação, seja na própria vida, seja na vida de algum conhecido. Dores abarca o último estágio de um sentir que não vê mais rotas de fuga e muitas vezes se resigna.

Se por um lado temos aquilo que está entranhado na pessoa e que nem sempre está à mostra (por vontade ou por falta de oportunidade), por outro lado estão as relações humanas e suas complexidades. Com esses elementos-chave, Mahana brinca de nos contar histórias de indivíduos que poderiam ser qualquer pessoa e esse “ser qualquer pessoa” é o que mexe com o leitor – mexe com o ego, mexe com os princípios, mexe com ideologias, mexe com os pré-conceitos. Esse mexer incomoda, confronta e faz com que ora se compartilhe as emoções, ora as repudie, julgando-as incabíveis.

Ao se tratar de pessoas e da convivência mútua, as expectativas são pontos cruciais que, em grande parte, ditam as regras da vivência de alguém. Expectativas são criadas em diversos níveis e a autora aborda uma porção deles através do relacionamento de pais e filhos, relações profissionais, conjugais e até consigo próprio.

A beleza de Mahana está em colocar o peso devido às situações sem o colocar de fato. Com escrita suave atribuída aos pensamentos e devaneios, a autora evidencia calos e feridas de forma chocante, sem perder o tom sarcástico e irônico, o que torna a leitura absurdamente divertida. Absurdo porque muitas das situações não são engraçadas, são angustiantes. Outro ponto forte é a imparcialidade, seus narradores são diversos e suas narrativas não os julgam, independentemente do lado em que eles estejam; eles simplesmente são.

O emaranhado de sentimentos apresentado demonstra as dores inerentes e causadas, essas dores cansam e o sentimento é passado a quem acompanha os contos curtos, porém intensos. Esse cansaço faz doer e dói no físico, o leitor também sente isso. No luto, há uma combinação de ambos e isso torna a obra de Mahana completa. Com pouco mais de 100 páginas, Luto, cansaços e dores é um dos mais novos lançamentos da Editora Moinhos e marca a chegada de Mahana Cassiavillani à casa, somando ao time de autores com sua potência e singularidade que a colocam no patamar de grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.


Você pode conhecer o livro clicando aqui.