Michel de Oliveira Entrevista
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Entrevista com Michel de Oliveira

26 de março de 2021

Depois de duas coletâneas de contos, você agora apresenta ao público um livro de poesias. O que o fez se aventurar nesse estilo? Era algo que já estava em seus planos?

Sempre me considerei prosador, nem na adolescência escrevi versos. Foi uma surpresa para mim quando, nos últimos anos, brinquei de escrever poesias. Fazia isso nas notas do celular, às vezes enviava para algum amigo ou amiga dizendo com ironia: vou virar poeta agora. E ríamos. Daí veio a pandemia, um completo esgotamento mental, não queria ler, nem saber das notícias. De forma muito espontânea, ao tentar escrever um conto, saiu em verso, e eu respeitei. Então decidi reunir as poesias que estavam no celular e me surpreendi com a quantidade: mais de 50. Uma parte significativa delas sobre amor ou paixão. Descobri um embrião de livro não planejado e decidi levar a gestação criativa adiante. Brinquei de escrever mais uns poemas, arquitetei a estrutura interna da obra e aí está O amor são tontas coisas.

Para você, houve muita diferença no processo criativo entre as narrativas curtas dos contos e microcontos para os versos dos poemas?

No que diz respeito à motivação para a escrita, não. Sigo escrevendo de forma intuitiva e sem planejamento, quando algo me afeta, incomoda ou surpreende. Mas o desenrolar do processo foi bem diferente, porque as poesias nascem prontas. Se eu mexo demais, acabo estragando. Então não precisei fazer mil edições, com os contos o processo todo é mais lento. Acabei me divertindo escrevendo e organizando as poesias, porque na minha cabeça era uma grande brincadeira. Agora, que o livro está pronto e vai ganhar o mundo, me bate certo desespero, porque saí total da minha zona de conforto e não faço ideia de como leitores e leitoras receberão essa brincadeira poética. Espero não passar vergonha.

O trocadilho no título O amor são tontas coisas o torna um tanto emblemático e faz aguçar a curiosidade sobre o que encontrar nos poemas do livro. O que da relação entre o quantitativo e o qualitativo do sentimento o levou a essa escolha?

Nem sei direito de onde veio a ideia do título, mas anotei no celular: o amor são tantas coisas. Gostava dele, mas ainda não era o que eu queria dizer com o livro. Foi quando, por brincadeira, troquei o tantas por tontas e ficou. Enquanto respondo a esta entrevista, penso que a mudança foi influenciada pela motivação de divertimento que me levou a escrever os poemas. De alguma forma, eu estava buscado uma fuga para a severidade das coisas, do momento histórico, da vida e do próprio tema amor, que sempre é tratado como algo grande, colossal. O amor abordado pelo livro é pequeno, como os poemas; uma bobagem que alegra o dia, feito uma cereja; e meio sem sentido, uma tontice que nos tira do eixo. Ou coloca no eixo certo, não sei.  

Em seus trabalhos anteriores, por mais distintos que sejam entre si, nota-se uma perspicácia capaz de promover intensidade e até choque durante a leitura. Também se detecta esse traço nos poemas de O amor são tontas coisas. Há alguma expectativa quanto à experiência que os leitores terão com o seu estilo de escrita?

Meus primeiros escritos tinham a intenção explícita de incomodar. Era minha motivação jogar pedras em quem me lesse. Mas passei a me sentir um pinscher raivoso latindo no portão e fui ficando mais calmo. Achava eu que minha escrita tinha passado por uma grande mudança, mas quem me lê ainda fala de intensidade, choque, incômodo. Então havia algo para além da intenção de provocar incômodo. Pensando em voz alta, talvez isso venha da escrita direta, sem rodeios. Minha literatura é pouco literária, no sentido de não ter firulas, enfeites desnecessários para parecer poético, profundo e inteligente. Talvez seja a honestidade que choque, não sei.

Agora que você já publicou livros de contos e poesia, podemos esperar para breve um romance de sua autoria?

Meu segundo livro, em ordem de escrita, é um romance, porém outros projetos passaram na frente dele. O amor são tontas coisas, por exemplo, foi o último a ser escrito e furou a fila. A poesia parece mais ansiosa do que a prosa. Para mim, ao menos, está sendo. Se ficasse de molho, como os outros projetos, é bem possível que eu desistisse de publicar. A narrativa longa demanda um tempo grande de maturação, o que me irrita. Gosto de coisas rápidas, por isso meu apreço maior pelo conto. Se dependesse da minha vontade, já teria publicado. Mas os outros projetos pediram urgência, obedeci. Em breve, talvez, o romance seja publicado, quem sabe.

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