Publicação

Moda & Literatura, por Geanneti Tavares

3 de setembro de 2019

Todas as pessoas servem-se da moda, sem distinção de sexo, idade, classe, convicção política ou religiosa, entre outras coisas, desejando ou não. Mesmo alguém que sente um desejo iminente de protestar ao ler essa afirmativa. A moda é um fenômeno básico das sociedades modernas, e não somente das capitalistas. Nestas últimas, ele é óbvio, escancarado, e é uma espécie de lenitivo para apaziguar outras dores, mesmo aquelas que o próprio sujeito ignora em si.

Desde a pré-história, o ser humano desejou se adornar. E se não for esse um motivo satisfatório e convincente para justificar o uso de peças vestimentares (englobo aí roupas e acessórios) precisou e precisa proteger seu corpo; e se ainda não for por esses motivos, sentiu e sente vergonha de mostrar determinadas partes do corpo; e ainda mais um, sente necessidade de “desenhar” sua imagem pública e mostrar sua personalidade por meio dos objetos com que se constrói. Ler A psicologia das roupas, de John Flügel, pode ampliar essas ideias.

O que é a moda então? Pode ser várias coisas: forma de expressão individual de subjetividade; forma de identificar determinados grupos por meio de semelhanças e diferenças, afinidades e aversões; forma de oprimir e dominar grupos; forma de manipulação e adormecimento das massas. Mas é fruto do desejo humano de compreender a si e ao mundo, de nomear, classificar, ilustrar, coisas e a si mesmo; é um desejo de cultura.

No pensamento de Roland Barthes, uma distinção entre os tipos de moda: Moda, no sentido de fashion, e uma moda, esta última no sentido mais material, de modismos passageiros. Claro que estão vinculadas e uma depende da outra para existir, e há muitas nuances nessa definição que não cabem aqui nesse curto texto, feito para trazer curiosidade sobre o entrelace entre a moda e a literatura. Essa distinção nos ajuda a compreender como, por meio da engrenagem do novo (que é mixado com o antigo), a moda se mantém. E hoje ela paga o preço da pressa, pois, ao acelerar seu sistema com o fastfashion, vem sentindo o desgaste em sua própria capacidade de inovar (mas isso é outro assunto).

Tudo isso é matéria para o escritor. A moda é parte de um “fio social” – para usar uma expressão de Antonio Candido ao associar a escrita machadiana aos salões e rumores da sociedade de sua época (século XIX). Não por acaso, Machado possui narrativas baseadas nas conexões sociais por meio da moda.

Há uma exigência social e cultural no indivíduo, interna e externa, que faz da moda um demarcador do tempo. Por meio da imagem de moda, podemos saber muito do contexto geral de uma época. O que se altera na sociedade irá refletir na imagem das pessoas e a imagem das pessoas alterará os sentidos da sociedade, e isso tudo está expresso na cultura, na arte, nas micropolíticas, nos artefatos que produzimos.

É um movimento circular. Foi o que Baudelaire (O pintor da vida moderna) quis dizer quando explicou que ao olhar gravuras de moda sentia “um encanto de dupla natureza: artística e histórica”. Por meio dos desenhos que via, era possível observar “a moral e a estética de uma época”. Obviamente se referia ao sentido filosófico de moral, que diz respeito ao conjunto de regras estabelecidas por uma sociedade que são adquiridas por meio da cultura, os costumes de um povo, mas que também serve para analisar outros aspectos da moral. A moda é manifestação de pensamentos conscientes e inconscientes e os torna reais.

A imagem de moda, no texto ficcional, é capaz de materializar o pensamento do leitor, torna o texto lido mais próximo, a personagem mais verossimilhante. A imagem é capaz de evocar as coisas pensadas, lidas, vistas, os cheiros, os gostos, calores e volatiliza tudo em sensações e emoções. Ela conecta mundos aparentemente distantes, como a moda e a literatura.

Por meio da imagem de moda elaborada criativamente em palavras no texto ficcional, que depois se tornarão novamente imagem na mente do leitor, é que nasce essa relação. Na literatura, a moda surge como estratégia criativa de escrita para realizar imagens na mente do leitor, seja de ordem histórica, estética ou tática.

Quando são de ordem histórica, contam detalhes de uma época, contextualizam, evocam e guardam memórias. Quando são de ordem estética, encantam, emocionam e arrebatam. Quando são de ordem tática, têm função estratégica, de controle, como quando Machado de Assis apresenta um descritivo quase vazio de imagens no aspecto vestimentar dos gêmeos Esaú e Jacob para não expor o argumento de sua narrativa; ou quando descreve Capitu de forma incongruente para manter as dúvidas do leitor sobre sua honestidade ou dissimulação. E todas essas camadas podem ocorrer em uma mesma obra, a depender da habilidade do escritor.

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