Publicação

María Zambrano e a Razão Poética

4 de fevereiro de 2021

Primeira mulher vencedora do Prêmio Cervantes, pensadora uniu a filosofia e a poesia em um único conceito.

Ao denominar a filosofia como a busca concreta pelo saber, intrínseca ao ser humano, e a poesia como a manifestação transcendental e fluida, aberta à diversidade, utilizada para expressar a realidade, pode-se pensar que ambas as frentes seguem por caminhos opostos, correto? Não exatamente.

Uma pensadora expandiu os horizontes e construiu a ponte que interliga a razão e o mítico. Estamos falando de María Zambrano, escritora e filósofa espanhola que apresentou de forma peculiar um método diferente de pensar filosofia, com um estilo que caminha às margens, porém não foge nem renega as origens.

Mas quem foi María Zambrano?

Nascida em 1904 no município Vélez-Málaga, região da Andaluzia (Espanha), María Zambrano Alarcón foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Miguel de Cervantes em 1988, um dos mais importantes prêmios literários da língua espanhola.

Filha de professores, passou boa parte da infância em Segóvia, antes de partir à capital da Espanha e iniciar seus estudos em filosofia na Universidad Central de Madrid, onde conheceu os mestres José Ortega y Gasset, García Morente, Julián Besteiro e Xavier Zubiri, que se tornariam suas referências – principalmente Ortega y Gasset. Posteriormente, lecionou em algumas instituições, incluindo como substituta de Zubiri em Metafísica na Universidad Central, numa época em que poucas mulheres tinham sequer visibilidade.

Zambrano também contribuiu para alguns periódicos na década de 1930, como a Revista de Occidente, a Cruz y Raya e Hora de España, antes de se exilar por razões políticas durante a Guerra Civil Espanhola, período em que vivenciou os horrores da ditadura por estar do lado dos republicanos.

Durante o exílio, passou por diversos países, inclusive nas Américas, e teve contato com nomes ilustres como Octavio Paz e Albert Camus, retornando à Espanha somente em 1982, onde faleceu no ano de 1991. Esse período também rendeu grande parte da produção de sua obra, entre ensaios filosóficos e literatura, que deu a Zambrano o título de pensadora espanhola mais importante do século XX.

Um conceito onde filosofia e poesia coexistem

Embora seja uma personalidade renomada e digna de reconhecimento, María Zambrano ainda hoje é pouco conhecida fora do circuito acadêmico, quando não é desconhecida dentro no próprio meio. Parte se dá pelo estilo particular da pensadora espanhola ao criar sua linha filosófica que, apesar de beber na fonte clássica da filosofia, mostra divergências à racionalidade tradicional.

A filosofia existencial e, principalmente, o vitalismo são correntes filosóficas integrantes nas referências de Zambrano, mas são os ensinamentos do professor Ortega y Gasset que têm maior influência em seu trabalho, que defende o conceito de raciovitalismo ao dizer que é possível – se não inerente ao ser humano – investigar a vida e as suas circunstâncias estranhas a explicações lógicas utilizando a razão. Afinal, a realidade é um conjunto do saber com o sentir.

É daí que nasce a razão poética, inovadora linha de pensamento de María Zambrano, que difere da de seu mentor Ortega pela sensibilidade e pela possibilidade de reflexão sobre a multiplicidade da vida através do uso da metáfora, característica encontrada na poética e que traça o estilo próprio zambraniano, assim como a essência de suas obras acadêmicas e literárias.

O ser humano carece do saber racional tanto quanto de explicações sobre a história e crenças em manifestações tidas como sobrenaturais. Tal carência encontra na razão poética de Zambrano um meio de se conseguir respostas a questões essenciais, perguntas feitas no âmbito da realidade (filosófico) que encontram compreensão em meio ao caos no âmbito sensitivo e reflexivo (poético). O método reconhece a possibilidade de coexistência entre filosofia e poesia, distintas no conceito, unidas na essência humana.

Com estilo literário acessível aos diversos leitores e linha filosófica que demostra originalidade, María Zambrano reclama através de sua obra a imiscuidade da filosofia e da poesia, rompendo o discurso racional ao introduzir a metaforização em seu método para pensar sobre a vida e a ligação entre o humano e o mítico através da razão poética.

Um de seus principais trabalhos é Filosofia e poesia, livro que teve a primeira edição publicada em 1939. A obra propõe refletir sobre a conciliação entre as duas frentes – filosofia e poesia – através de sua narrativa racional poderosa unida à graciosidade de sua poesia. O livro Filosofia e poesia será um dos lançamentos de 2021 da Editora Moinhos, trazendo ao público brasileiro uma obra rica dessa premiada pensadora, relevante para a filosofia e para a literatura.

Você pode ler um trecho de Filosofia e poesia clicando aqui.

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