Otavio Linhares

Otavio Linhares trabalha profissionalmente com literatura, dramaturgia, cinema e teatro, desde 2005.

Natural de Curitiba, começou a estudar atuação em 2003 e até hoje atuou em dez espetáculos. Em 2010, foi indicado a Melhor Ator do Paraná pela peça Habitué.

De 2009 a 2013 fez parte do Núcleo de Dramaturgia do SESI-PR e, como autor, já publicou quatro livros: uma novela (Pancrácio/2013/Encrenca), dois de contos (O Esculpidor de Nuvens/2015/Encrenca e O Cão Mentecapto/2017/Arte & Letra) e um romance (Cavalo de Terra/2021/Moinhos). Editou um periódico de literatura, a Revista Jandique, de 2013 a 2014, com sete números publicados e 14 livros como editor.

No cinema e no streaming, já participou de mais de 30 produções, com destaque para os longas Deserto Particular, Ainda Estou Aqui (Oscar de MELHOR FILME INTERNACIONAL) e Nova Éden; e para as séries Carcereiros (Globoplay), Irmandade (Netflix), e Cidade de Deus (O2 Filmes).

  • O cão mentecapto

    O cão mentecapto, edição revisada e ampliada, acompanha o cotidiano cru, violento e irônico de crianças e adolescentes da cidade de Curitiba nos anos 80/90. A obra expõe as desilusões, o bullying e a perda da inocência de jovens imersos em estruturas familiares falidas e ambientes urbanos hostis. O livro retrata pequenas contravenções, assaltos cotidianos, a descoberta da sexualidade e o descaso social sob a lógica particular da infância e juventude.

    O livro se destaca por sua estética áspera e ritmo acelerado, com uma narrativa pulsante que dispensa o uso formal de vírgulas e letras maiúsculas. Uma escolha técnica que cria um fluxo de consciência frenético, simulando a pressa, a confusão e a fúria típicas da adolescência. O vocabulário é fortemente amparado no dialeto e em gírias de Curitiba, dando autenticidade geográfica e social aos contos.

    O cão foge inteiramente do clichê da infância idílica. A nostalgia, quando aparece, é evocada de maneira crua e realista, onde o leitor pode testemunhar situações vulgares e trágicas como o furto de pequenos objetos em lojas de departamento; o impacto psicológico de sofrer assaltos e violências de todos os tipos de pessoas mais velhas, inclusive da própria polícia; a busca por identidade em meio a lares desajustados dominados por pais ausentes ou alcoolismo.

    A grande força do livro está em não julgar suas figuras. Os adolescentes e seus familiares não são desenhados como vilões ou vítimas puras, mas como indivíduos que pedem socorro de maneira errática. O livro é um retrato seco sobre a busca por lógica em um mundo adulto caótico e violento, sem lógica alguma.

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  • Cavalo de Terra

    O narrador deste romance – sem nome, sem idade e sem lugar de destaque – é o caçula de uma família em ponto de erosão. Em um fluxo frenético de pensamento derramado pelo cotidiano e por entre seus lugares escuros de consciência, ele nos apresenta sua realidade aquebrantada. O irmão promessa, o outro irmão ladrão, o pai beberrão, a mãe apagada e a avó sobrevivente são os átomos desse núcleo familiar e pano de fundo para episódios corriqueiros que compõem um mosaico da solidão.

    Os personagens de Otavio Linhares, a conhecer por sua trilogia de contos anterior a este Cavalo de Terra, transitam entre o escárnio e a tragédia, num registro oral que exige malícia e velocidade por parte do leitor. Suas vozes se misturam, se confundem e canibalizam, explicitam o cru e tropeçam na pobreza de seus repertórios. Cabe ao leitor encontrar a ferida afetiva e dar o diagnóstico emocional com base em seus gritos abafados. Como na vida, todos os personagens de Linhares – uma das vozes mais proeminentes da literatura paranaense contemporânea – pedem socorro de forma errática. O mal estar gerador de desesperos difusos e desendereçados é o grande personagem deste livro que o leitor tem agora em mãos.

    Yuri Al’Hanati

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    Escrita de quem escuta, observa, traduz o mundo.

    Texto para ser lido em voz alta, pois, como toda boa literatura, consegue sustentar-se na voz humana, escapa do papel para ser carne.

    Temos aqui um narrador poderoso, cuja capacidade descritiva invoca presenças, fazendo com que elas invadam o que é narrado através de uma frase, uma expressão, uma palavra. Um narrador capaz de nos lembrar que antes de tudo, essas pessoas submetidas a um sistema de desigualdade profunda, são humanas, paradoxais.

    Linhares nos coloca para frente, nos convida a pensar a literatura como música, ritmo, pintura, paisagem. Há uma beleza que perfura os olhos para que vejamos melhor com nossa sensibilidade ativada, esta capacidade humana tão entorpecida pelos tempos que correm.

    Não deixem de fruir este livro com tudo de mais terrível e belo que ele carrega. Aqui, neste universo, não há maniqueísmo.

    Dione Carlos

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