Ian Fraser - Editora Moinhos

Ian Fraser

Ian Fraser nasceu em Salvador, Bahia, no ano de 1983. Formado em Cinema & Vídeo e fundador do Teclado Disléxico, seu primeiro romance, O Sangue é Agreste, venceu o prêmio Jovem Autor Inédito pelo Selo João Ubaldo Ribeiro. O romance, um faroeste brasiliense repleto de experimentalismo formal, é o primeiro capítulo na trilogia Os Livros do Sertão. Ian Fraser também escreveu e produziu a peça A Máquina Que Dobra o Nada, sucesso de crítica e vencedor do Prêmio Braskem de Teatro, a maior premiação do teatro baiano, na categoria Melhor Espetáculo Infantojuvenil.

  • Araruama: o livro das raízes

    Imagine que, ao nascer, você já saiba quantos anos viverá. Se viver muito, terá que enterrar todos aqueles que ama. Mas se for viver pouco, que escolha terá? O que você faz com o tempo que lhe é dado?

    Esse é o dilema dos habitantes de cada um dos sete povos de Araruama, a ambiciosa e envolvente proposta cosmogônica de Ian Fraser, este baiano de nome importado e sangue nativo, que se lançou, com método e estilo, ao desafio de criar um mundo. Um em que velhas Majés preveem o futuro, animais gigantescos guardam as passagens, e anhangüeras, nem mortos nem vivos, assombram as matas. E um mundo nascido da fusão cultural das três Américas pré-colombianas, onde, tal qual no famoso mapa do uruguaio Joaquín Torres Garcia, o nosso norte é o sul.

    Assim temos Apoema, a arqueira destinada a ver o futuro sem poder mudá-lo, nascida na fria, montanhosa e incaica aldeia de Ivituruí. Temos o jovem e reticente líder Kaluanã e seu amigo Obiru, um destinado a viver muito, o outro a viver pouco, vindos da aldeia de Otinga, de inspiração pataxó e tupinambá. O espirituoso Eçaí, com orelhas de jaguatirica que lhe dão audição aguçada, vem da cidade de Itaperuna, de inspiração asteca. Já o casal formado pelo gigantesco Batarra Cotuba e a feroz Izel Pachacutec vem de Buiagu, que funde a cultura maia com as cidades escavadas dos anasazi. O ágil Ook Séeb, com suas luvas de garras férricas, vem de Atibaia, de inspiração choctaw norte-americana, e Najoch Su’uk vem da pantaneira Tucuruí, de inspiração paiaguá. Mas enquanto os jovens percorrem a Ibi, a deusa mundo, no seu rito de passagem conhecido como Turunã, é na capital do continente, a cidade de Mboitatikal, de inspiração maia, que intrigas movidas por inveja, poder e ambições pessoais ameaçam mergulhar toda Ibi em guerra.

    O que Fraser vem construindo desde o primeiro volume da saga Araruama é nada menos que impressionante: com sua geografia reinventada, hierarquia social estruturada e religião própria, não raro a sensação é como se estivéssemos lendo Tolkien escrever o Apocalypto de Mel Gibson.

    A imagem que temos da América pré-colombiana e dos povos indígenas é, em grande parte, aquela que o conquistador europeu encontrou ao tempo da colonização. Mas sempre me perguntei: que narrativas épicas estariam vivendo esses povos, que monstros míticos ou deuses temperamentais habitariam a América enquanto os egípcios antigos povoavam o Nilo, enquanto gregos e troianos se enfrentavam? Quantas cidades míticas teriam, assim como Tróia, se perdido no tempo? O tempo, ou a deusa Monâ, que é elemento central dessa nova cosmogonia, fundamentada em Lévi-Strauss e inspirada em García Márquez, para atingir algo novo, inédito na literatura brasileira. Pois ao situar sua aventura em um tempo antes da História conhecida — “quando o tempo ainda era cru” — Fraser parte do folclórico para chegar no mitológico. E isso, leitor, traz uma energia e uma força criativa a serem respeitadas.

    Samir Machado de Machado

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